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Minhocão: de viaduto a parque

Minhocão:
de viaduto a parque

Após décadas de discussões, a prefeitura decide construir um parque sobre o polêmico Elevado Costa e Silva, que corta o centro da cidade por 3,4 quilômetros.

Linha do tempo

Antes do minhocão

A partir dessa lógica de construção e expansão da cidade de São Paulo, que não foi planejada para fruição e interação de grupos diversos, que foi construído o Minhocão. Nas décadas de 30 e 40, período conhecido e valorizado pela vida boêmia e cultural, a Av. São João contava com muitos cinemas, comércios sofisticados e casas luxuosas. No entorno de onde seria construído o Minhocão, habitavam as classes média e alta. Os herdeiros 10 dos barões de café escolheram bairros como Higienópolis e Santa Cecília para construção de suas mansões e palacetes.

1969 - Construção

O prefeito Paulo Maluf, indicado para o cargo pelo segundo presidente da ditadura militar, Artur Costa e Silva, anuncia à imprensa a construção de uma via elevada, com quase 3,5 km de extensão, a maior obra em concreto armado da América Latina. Partindo da Praça Roosevelt, passa por cima da Av. Amaral Gurgel e Av. São João, e termina no Largo Padre Péricles, em Perdizes, passando a uma distância de até 5 metros dos apartamentos.

A obra teve início em 01 de novembro de 1969 e seguiu “em ritmo de 24h por dia” com objetivo de terminar em 01 de dezembro de 1970, segundo pronunciamento do prefeito. Um mês antes do início da construção, em 01 de janeiro de 1970, o jornal Estadão publicou uma matéria denominada “Elevado, o triste futuro da avenida”, trazendo à tona a discussão da destruição já causada pelo Elevado, antes mesmo da sua inauguração. Desde então sua funcionalidade vem sendo questionada.

1976 - Fechamento

Cinco anos após a sua inauguração, em 1976, a precarização da região se tornou latente. Os imóveis, terrenos e comércios do entorno foram drasticamente desvalorizados durante e após a sua construção. Em virtude da alta quantidade de acidentes, poluição sonora e atmosférica, a prefeitura decide fechar o local para carros das 00h às 5h; e desde então os pedestres começam a ocupá-lo

Demolir?

Para diminuir os acidentes da região, em 1989, a prefeita Luiza Erundina determina que o Elevado seja fechado para automóveis de segunda a sábado, das 21h30 às 6h30, e aos domingos e feriados em período integral. Em 1993 ela apresenta, pela primeira vez, um projeto de demolição, com o argumento de que o Elevado degrada a região. Porém o prefeito sucessor, Paulo Maluf, o próprio responsável pela construção do Elevado, barrou o projeto.

Em 1996 é sancionada a lei nº. 12.152, que dispõe o horário de fechamento para
carros, de segunda-feira a sábado das 21h30 às 6h30 e aos domingos e feriados durante 24h.

Em 2010, durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab, é divulgado outro projeto que prevê a demolição do Minhocão.

Plano Diretor de 2014

Em fevereiro de 2014, o prefeito Fernando Haddad deu início ao projeto “Centro Diálogo Aberto”, que permite que a população, em especial os que utilizam espaços públicos do centro, avalie, acompanhe e participe ativamente dos projetos de requalificação dos espaços. Entre os objetivos do projeto, era uma cidade ativa dia e noite, introduzindo atividades de diversidade, com foco nos pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Esse projeto faz parte do PDE – Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, de 31 de julho de 2014. Nesse mesmo ano é sancionada a lei nª 16-050, que determina a redução continua até a restrição total da circulação de automóveis no Elevado João Goulart.

A escolha

O Parque

Em março de 2016 é sancionado pelo prefeito Fernando Haddad o projeto de lei (PL) 22/2015 que intitula o Elevado como “Parque Minhocão”, nos dias em que a via estiver fechada para carros. No mês de julho do mesmo ano, é sancionada a Lei Nº 16.525, que altera o nome do Elevado Presidente Costa e Silva para Elevado Presidente João Goulart. A mudança faz parte de um programa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, chamado Ruas da Memória. O novo Plano Diretor Estratégico prevê a demolição do Minhocão ou transformação completa, ou parcial em parque até o ano de 2030.

Anuncio de construção

A gestão Bruno Covas anunciou um investimento previsto de 38 milhões de reais será bancado com recursos municipais (provavelmente do Fundurb). A primeira etapa do Parque Minhocão vai compreender um trecho da saída da Ligação Leste-Oeste ao entroncamento com a Avenida São João. Quem seguir no sentido dos bairros de Perdizes e Barra Funda só poderá pegar o elevado por um acesso próximo à Rua Helvétia, na região dos Campos Elíseos. Até esse ponto, o motorista deverá seguir pela Avenida Amaral Gurgel. No outro sentido, o caminho em direção à Zona Leste será interrompido na passagem para a Rua Sebastião Pereira, na Vila Buarque.

1ª Etapa

Obras de segurança e acessibilidade no trecho da saída da Ligação Leste-Oeste ao entroncamento com a Avenida São João.

  1. Instalação de acessos em nove pontos de todo o elevado, entre elevadores e escadas.
  2. Implementar estruturas de proteção nas laterais para garantir a segurança dos frequentadores.
 

A previsão é que até o final de 2019 essas obras estejam concluídas. As ações previstas na primeira fase foram recomendadas pelo Ministério Público.

2ª Etapa

Implantação de 900 metros de parque entre a Praça Roosevelt e o Largo do Arouche.

  • 17.500 metros quadrados com jardins, além de floreiras e deques, dispostos em módulos pré-fabricados.

A Prefeitura de São Paulo ainda afirma que irá utilizar o conceito urbanístico e referências do arquiteto Jamie Lerner, com material modulado, efêmero, propostas de usos institucionais no baixo do viaduto e intervenções que permitem a integração dos espaços.

3ª Etapa

Envolve o Projeto de Intervenção Urbana (PIU) – discussões e participação popular para estabelecer um regramento mais especifico do entorno. Irá ocorrer paralelamente à segunda etapa.

A PIU irá gerar caixa para a Prefeitura revitalizar o centro da cidade e instalar equipamentos de assistência social para populações em vulnerabilidade social na região.

Polêmicas

Gentrificação

Para o professor Dr. João Sette Whitaker Ferreira (2014), em seu artigo “Maluf, o minhocão e a gentrificação”, a desativação do Elevado ou transformação em parque vai encarecer a região e favorecer a especulação imobiliária, expulsando do local, ambulantes e pessoas com rendas mais baixas, que estão próximas de seus trabalhos e só puderam residir no local após a construção do Elevado, que reduziu o valor dos imóveis e afastou os mais abastados para outros bairros.

E o que se quer, então, do Parque Minhocão em São Paulo? Estímulo a uma frente de construção e valorização imobiliária ou um parque para os moradores, que possam seguir vivendo na região? São questões a serem debatidas sobre o parque.

Fila de turistas no High Line. Foto: Paula Santoro

Em São Paulo, a gentrificação virou assunto a partir da ideia do Parque Minhocão, iniciativa para usar como área de lazer um viaduto que corta o centro da capital. Para debater a questão, os estudantes Ingrid Mabelle, Caroline Carvalho e Fabio Santana e o operador de câmera Fernando Zamora fizeram o documentário Ponto de Vista (abaixo).

Transito

A partir do dia 11 de julho de 2014, após estudos realizados pela CET, o Minhocão começou a fechar às 15h todos os sábados para veículos motorizados e em 2015, os estudos mostraram que é possível tanto à demolição do minhocão quanto a realização de um parque. Em agosto deste mesmo ano, é inaugurado pelo prefeito Fernando Haddad a ciclovia sob o Minhocão, com 5 km de extensão, liga a Praça Roosevelt até o Memorial da América Latina.

Conclusões dos relatórios da CET:

O impacto viário da ampliação do horário de fechamento da via elevada (Minhocão) ficou restrito às vias do entorno e pode ser mitigado com ações de engenharia de tráfego como a proibição de estacionamento, regulagem de semáforos e operação sistemática do tráfego nas vias desta região, entre outras medidas.

Oportunidade para transformar

De qualquer maneira, o Parque Minhocão desde já se constitui como um laboratório de práticas urbanas, capaz de orientar novos modos de ocupar e viver a cidade. E se o território tem um caráter educativo intrínseco, o Parque Minhocão é espaço único de aprendizado. Num país 86% urbano, de acordo com dados de 2010 do IBGE, o parque é uma boa chance de ensinar a todos e, em especial, às crianças, a compreender os conflitos urbanos, a debater a cidade e a ocupá-la de forma generosa com a diversidade, lúdica e efetivamente transformadora.